segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A Arte da Guerra

Viver em Lisboa é um privilégio. Uma cidade que, sem ser particularmente grande quando comparada com outras capitais, tem sempre sítios por descobrir. Um bar. Um restaurante. Uma praça. Uma vista. Ou all of the above. Uma cidade que se transformou ao longo dos tempos, que cresceu, que teve dores de crescimento. Essas dores são visíveis um pouco por toda a parte. Prédios abandonados, zonas desertificadas, pessoas que vivem nas ruas ou, simplesmente, desleixo urbanístico. Mas não é sobre essas mazelas que queria escrever hoje. Até porque a cidade tem vindo a melhorar ao longo dos anos, não é Terreiro do Paço?


Melhor parque de estacionamento da Europa ou pior aproveitamento de uma zona história de todo o sempre?

Hoje o tópico será um ponto positivo de Lisboa, a oferta cultural low cost de que a cidade dispõe. 

Está a decorrer no Torreão Poente do Terreiro do Paço uma exposição essencialmente fotográfica intitulada "A Última Fronteira - Lisboa em Tempos de Guerra", que retrata o modo como a cidade de Lisboa viveu o período da II Guerra Mundial, dando especial destaque ao mar de gente que aqui procurou abrigo da loucura alemã e da consequente guerra. Aproximadamente uma hora de entretenimento, de conhecimento não só de história mas também de um espaço da cidade pouco conhecido mas com uma vista privilegiada, tudo por três míseros euros.

Quanto à exposição propriamente dita, várias coisas me chamaram a atenção. A pobreza generalizada e as ruas sobrepovoadas. As senhas de racionamento. Animais a conviverem com crianças descalças no meio da cidade. As aventuras burocráticas a que os refugiados se tinham que se sujeitar para conseguirem passar para os Estados Unidos. Contudo, o que mais me impressionou foi o sentimento generalizado de que a chegada da guerra a estas paragens podia estar eminente, sob a forma de uma invasão espanhola patrocinada pela Alemanha. Um medo tão grande que levou as autoridades a cobrir alguns monumentos de sacos de areia de modo a protegê-los de eventuais raides aéreos (that should work...).

A exposição pode ser vista até ao final do mês. Os vossos níveis de sapiência agradecerão. 




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Com a boca. Com os pés.

Quando se escreve um blogue ou qualquer outra coisa com possibilidades de ser vista por um certo número de pessoas é impossível deixar de pensar na reacção do hipotético público perante aquilo que é escrito. E de imaginar a reacção a imaginar o público que reage vai uma curta distância. De criar expectativas face a esse público vai uma distância ainda menor. O tipo de público que eu imagino que este blogue possa eventualmente vir a ter é o tipo de público que sorri de modo sacana perante um título como o deste post. Do mesmo modo que aqui o Trambalazana sorriria. 

Assim, há que pedir desculpa ao público. Desculpa público. Este post não vai falar naquilo que todos nós estamos a pensar, que de resto é o que o título sugere. Fica para uma próxima vez. Hoje o assunto é outro.

Chegou-me pelo correio um envelope da Associação dos Artistas Pintores com a Boca e os Pés cheio de postais pintados pelos supracitados artistas através do supracitado método. Fez-me disparar o pensamento em vários sentidos. Na direcção de muitos natais, no século passado, em que uma Avó gone but no forgotten, mostrava aos netos a sua colecção de postais desse género. Na direcção da minha inqualificável capacidade artística que, mesmo provida de mãos, não conseguiria desenhar uma casa nem que disso dependesse a paz no mundo ou o Benfica campeão. Na direcção do papel que solicitava um contributo financeiro que, por um misto de tesismo e forretice crónica não irei fazer, ainda que reconheça que é uma causa que merece apoio. Afinal, perder os braços ou as mãos é estupidamente fácil, podendo acontecer a qualquer um, a qualquer momento. Difícil é, no meio da desgraça, ainda arranjar força para fazer uma coisa destas.



Evidentemente, no envelope que recebi não havia nenhuma chinesice destas. É pena. Talvez, tal como o texto sobre outras coisas tão ou mais artísticas que também podem ser feitas com a boca e com os pés, fique para uma próxima ocasião.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ground Zero

É relativamente comum quando se cria um espaço deste tipo que o escriba, no caso eu, retratado na foto à vossa direita, tirada nos tempos em que era um cavalheiro do século XIX, proceda a uma curta apresentação. Pessoas, este é o Salto do Monóculo, Salto do Monóculo, estas são as Pessoas. 

Posto isto, importa dizer que há blogues com propósitos definidos. Um fio condutor. Uma visão, um rumo, um projeto. Neste blogue não há nada disso. No fundo, O Salto do Monóculo assemelha-se um pouco àquela casa. 

Não falamos sobre saltos. Falamos ainda menos sobre o monóculo e sobre o impacto que a sua queda em desuso teve nas sociedades contemporâneas, apesar de ser uma temática de reconhecido interesse. Sobre o que é que falamos então? Sobre tudo, ou, mais realística/humildemente, sobre nada. 

E afinal, qual é o problema de falar sobre nada?